Gritaram-me NEGRA!

Quando completei 15 anos reuni todos os cursinhos profissionalizantes que fiz e coloquei no currículo junto com minha escolaridade e dados pessoais. Sempre gostei de moda, por isso desde o início, sigo as Lojas Dori’s no Insta onde postam sobre seus looks maravilhosos em modelos muito lindas e sorridentes. Era o emprego dos meus sonhos! Assim que abriu vaga me candidatei mesmo sem experiência, não tinha nada a perder. Passou um mês e lá estava eu trabalhando na loja, sempre sorridente, atendia com toda a vontade as clientes e, modéstia à parte, muito bem elogiada por elas.

Certo dia uma das vendedoras me cutucou, apontou para a porta e sussurrou no meu ouvido: “Essa é sua!”. Quem estava entrando era uma cliente que aparentava ser rica, alta e muito bonita. Não exitei, fui até a moça e perguntei se ela precisava de ajuda, mal me olhou nos olhos e com uma blusa na mão perguntou: “Tem esse modelo na cor fuxia?”. A respondi que verificaria, não ia deixar a cliente na mão, uma das vendedoras veio atrás de mim e ao chegar no estoque parou à minha frente e disse que esta era a cliente mais difícil da loja e todas as outras colegas tiveram problemas ao atendê-la. Voltei com a blusa da cor fuxia que ela queria e fui recebida com um breve sorriso, a entreguei. Confesso que não gostei do caimento da peça no corpo dela, então fui até a arara de blusas próxima dali e encontrei uma que era lindíssima e que com certeza ela iria curtir. A mulher me olhou assustada, as borboletas do meu estômago queriam voar pela boca e ao entregar a peça meu coração disparou. Saindo do provador sentiu-se maravilhada, aquele era o look perfeito para a festa que ela participaria à noite, me agradeceu, pagou pela blusa e foi embora. Dali em diante, algumas colegas ficaram contra mim, talvez seja inveja por eu ter conseguido atender com sucesso a cliente, ou por eu ser novata, sinceramente não sei.

Aquela loja virou um inferno, inclusive começaram a falar mal de mim para a gerente, disseram até que as clientes estavam me evitavam por não estar bem vestida, maquiada e ainda falaram que meu cabelo estava armado demais, talvez eu precisasse mudar. Me rendi por um momento, era meu sonho trabalhar naquela loja. Saí da sala da chefia com a cara arrastando no chão, um peso enorme nas costas, no caminho até a saída da loja eu só pensava: “Vou alisar o cabelo, comprar roupas normais, preciso me encaixar…” logo lembro da moça que atendi dias antes, ela era muito linda, no pouco conversamos pude perceber que de fato era bem-sucedida, juíza da cidade, negra como eu, dos cabelos mais cacheados, armados e incríveis que eu já havia observado. Foi então que compreendi o que estava acontecendo, levantei a cabeça, enxuguei minhas lágrimas e no outro dia não alisei, pelo contrário, armei ainda mais meus cabelos, coloquei a roupa mais estilosa que eu tinha, meus brincos eram perfeitos, quando olhei no espelho minha pele negra estava linda como sempre, abri um sorriso com a certeza de que dali pra frente tudo seria diferente, e fiz uma selfie que na legenda escrevi uma pequena adaptação do poema de Victoria Santa Cruz que diz: “Afinal compreendi, não retrocedo e avanço segura. Gritaram-me NEGRA e eu respondi: SIM! NEGRA SOU.”

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